Li uma reportagem no jornal de hoje que falava sobre um caso de abuso e desrespeito muito comum em Porto Alegre e em qualquer capital brasileira hoje em dia: uma pessoa deixou seu carro estacionado na rua, sob o imediato assédio de um flanelinha, que lhe cobrou R$ 5 de "adiantamento" para "cuidar" do carro. Negou-se a pagar, foi fazer o que tinha pra fazer e, quando voltou, viu que seu carro estava riscado em toda a lateral.
A conclusão do jornalista que escreveu a reportagem foi de que os porto-alegrenses estão reféns dos flanelinhas.
A minha conclusão é um pouco diferente.
Sei que Porto Alegre é uma terra de "Magals". Magal é uma gíria que se usa aqui pra denominar um cara que tem paixão, digamos, exacerbada por carros. Tipo aqueles caras que botam neón embaixo do carro, bancos de couro, que ocupam o porta-malas inteiro com um som de um milhão de watts PMPO. Talvez, dadas essas circunstâncias, seja normal o cara considerar-se refém de alguém que ameaça riscar a lataria do seu lindo carrinho. E não estou aqui falando de vidro quebrado, pneu rasgado, ou alguma função básica do veículo danificada. Apenas de lataria riscada.
Essa reportagem, na verdade, me enseja duas reflexões, mas, em nome da clareza, vamos por partes.
O que é uma lataria de carro riscada? Pensando um pouco, talvez eu saiba o que é. É como uma espinha na cara, como um band-aid num dedo ornado por um anel de brilhantes, como um remendo numa roupa: é a marca ao mesmo tempo ridícula e gritante da mácula que perturba a incolumidade.
O ser humano tenta a todo custo se manter incólume. E sofre quando algo macula a sua pequena ilusão de perfeição. Há dois mil anos o nosso grande amigo JC disse "Sede perfeitos", mas o ser humano normalmente é como aquele nosso amigo seqüelado que sempre entende a piada errado. Não, JC não estava falando da perfeição do cabelo impecavelmente liso, das roupas indefectivelmente na moda, do corpo esculturalmente talhado, ou do carro de lataria brilhante sem nenhum risquinho. Mas como entendemos tudo errado, lá vamos nós atrás de cirurgias plásticas pra reparar aquele nariz que é meio tortinho, de técnicas de clareamento pra deixar nossos dentes brancos como a neve, ou de personal trainers capazes de reduzir nosso percentual de gordura corporal pra 0,5%. Porque, claro, tudo tem que estar perfeito, e devemos nos manter incólumes.
Pois a minha conclusão sobre o risco feito pelo flanelinha na lateral de um carro porto-alegrense é a seguinte: um risco na lataria de um carro é apenas um pequeno defeito que não compromete em nada a sua funcionalidade. Não é ruim o suficiente pra transformar pessoas em reféns do que quer que seja. Muito menos em reféns da bandidagem. Assim como pequenas imperfeições que, graças à nossa futilidade, se agigantam tanto aos nossos olhos, não são suficientes para "macular" a beleza de ninguém. Assim como, aliás, os pequenos ou grandes defeitos que insistimos em encontrar na aparência alheia não são suficientes para macular o seu valor como seres humanos. Assim como, aliás... eu poderia ficar horas discorrendo sobre a desimportância daquele risco.
Porque o risco que me preocupa é um só: o risco seriíssimo que corremos de acabar perdendo de vez a noção do que é que, afinal, vale alguma coisa nesse mundo.
23.9.07
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Um comentário:
Muitíssmo interessante o comentário do que realmente o ser humano se importa, poderia ficar horas lendo as reflexões esse autor. Excelente!!!
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