18.12.06

Sem noção

Nossa ignorância a respeito das coisas não elimina o fato de que elas existem. Nem todo mundo pensa assim, já ouvi dizerem que, se a árvore cai no meio do mato sem ninguém num raio de quilômetros para testemunhar, quem poderá dizer que aquilo de fato aconteceu? Pois não sejamos hipócritas: sim, aconteceu. E eu tive uma prova viva disso hoje.

Ontem à noite, eu até ensaiei uma tentativa de acordar hoje às oito e dez da madrugada para assistir ao jogo do Inter contra o temível Barcelona, pelo título do Mundial Interclubes. Digamos que a tentativa não foi muito bem-sucedida, e hoje à tarde, quando acordei, recebi com certa estupefação a notícia de que o Inter havia vencido o jogo por 1 x 0. Tudo bem, é sempre legal ver o Brasil fazendo bonito lá fora. Mas, embora more em Porto Alegre, eu sou botafoguense, portanto a vitória do Inter não me causou nenhum grande impacto, e eu simplesmente abstraí esse fato (que enlouqueceu 100% da população gaúcha, os colorados extasiados pelo título e os gremistas se roendo de inveja) pelo resto do dia.

E eu estava realmente ignorando o fato de que o Internacional havia sido campeão do mundo quando tive que ir até a República (rua localizada num reduto da boemia de Porto Alegre) para devolver as chaves que uma amiga tinha esquecido na minha bolsa na noite anterior. Só quando cheguei lá, um amigo me chamou a atenção pra um detalhe importante: "O que tu tá fazendo com essa blusa azul???". Pois é, a pessoa tem que ser realmente muito sem noção pra ir ao reduto de comemoração do Inter vestindo as cores do Grêmio.

O interessante é que durante boa parte da minha vida eu fui uma pessoa completamente sem noção. Depois, me dei conta disso, e melhorei um pouco. Mas acho que agora estou voltando às origens. Há uma frase famosa que diz que "A ignorância é uma bênção", e ultimamente eu tenho sido obrigada a concordar com isso. Pra que diabos afinal a gente quer estar sempre ligado em tudo, sabendo de tudo? O conhecimento universal não é muito útil quando a gente não tem o que fazer com ele.

Eu ainda não consegui deixar de perceber as intenções ocultas das pessoas, ainda não vai ser dessa vez que eu vou abandonar aquela comunidade do Orkut "Yes, eu Leio Pensamento", ainda não vou conseguir deixar de ter esse feeling absurdo que certas vezes me mostra coisas que eu preferia não saber. Mas eu estou me esforçando, um dia eu consigo ser completamente sem noção.


A propósito, parabéns aos colorados. Como eu disse antes, é sempre legal ver o Brasil fazendo bonito lá fora. Ok, eu sei que os gaúchos são separatistas, mas oficialmente o RS ainda pertence ao Brasil hehe... Aliás, quantos gaúchos jogam no time do Inter mesmo? :p Mas pelo menos agora os gremistas não poderão mais vir com aquele papo xarope de "nós somos campeões do mundo". Pelo menos não sem ouvir um sonoro e definitivo "Grande merda, nós também!" Parabéns, Inter!

9.12.06

Grammy e John Mayer

John Mayer é um dos melhores artistas que eu tive a oportunidade de conhecer recentemente. Uma noite, numa conversa despretensiosa no MSN, uma amiga do Guarujá, Rafinha, resolveu me mandar umas músicas de um tal John Mayer que eu não conhecia. Foi paixão à primeira vista por "Your Body is a Wonderland" (que, aliás, parece mesmo ter sido escrita com essa finalidade). Depois, em canções como "Love Song for No One", "My Stupid Mouth", "Neon", "Comfortable", "Daughters" e muitas outras, foi se descortinando para mim o talento incomparável para mesclar letras envolventes com uma melodia pop suingada com jazz e blues.

Ele já ganhou três Grammy's, como Melhor Performance Vocal Pop em 2002 ("Your Body is a Wonderland") e 2004 ("Daughters"), e como Música do Ano em 2004 ("Daughters).

Este ano, John Mayer está concorrendo em 5 categorias:

* Álbum do Ano - Continuum
* Melhor Performance Vocal Pop - "Waiting on the World to Change"
* Melhor Álbum Pop - Continuum
* Melhor Performance Vocal Solo de Rock - "Route 66" (da trilha sonora do desenho "Carros")
* Melhor Álbum de Rock - Try! (com o John Mayer Trio)

Nas categorias Álbum do Ano e Melhor Performance Vocal Pop, Mayer concorre com James Blunt, da i-n-s-u-p-o-r-t-á-v-e-l "You're beautiful" (alguém ainda agüenta ouvir aquele agudo?). A conferir dia 11 de Fevereiro.

Abaixo, vídeo da música que deu o primeiro Grammy a John Mayer, "Your Body is a Wonderland", na versão acústica (pra mim, a melhor).

3.12.06

A Imitação da Maria Rita no Programa do Jô

Momento de descontração: quando eu vi a imitação que essa guria fez da Maria Rita no Programa do Jô, eu literalmente chorei de rir.

Espero que a vizinhança não tenha se importado com um barulhinho um pouco mais alto à uma e meia da manhã hehehe... Mas valeu a pena.


30.11.06

Na Companhia de Livros

Estava vendo um filme na TV de madrugada, e havia uma cena em que uma menininha, que devia ter uns oito anos de idade, pedia emprestado a um menino, mais ou menos da mesma idade, um livro. Ela simplesmente estava no quarto brincando com ele, o livro estava por ali, e quando a mãe veio chamá-la para ir embora, ela passou a mão no livro e pediu ao amiguinho: “Posso pegar emprestado?” Ao que ele concordou, mas não sem fazer uma importante observação: “Mas traga de volta, hein?”

No mesmo filme, algumas cenas antes, o mesmo menino era surpreendido roubando mangas do quintal de uma mulher misteriosa. Ferido após cair da mangueira e cercado pelos cães de guarda, o menino fora resgatado pela dona da casa e levado pra dentro. Lá, confortavelmente sentado em uma poltrona, ele comentou: “Gostei muito de conhecer a sua casa. Há tantos livros aqui.”

O resto do filme, chamado “Cuba Libre”, é apenas assistível, mas essas duas cenas me despertaram uma nostalgia de livros que eu não sentia há tempos. Aliás, ultimamente pouco tenho pegado em livros, pra dizer a verdade (shame on me!). Mas o filme me fez lembrar como livros são uma ótima companhia.

Pouco antes de me mudar para Porto Alegre, eu passei dois meses longe da minha família, morando com uma tia com a qual eu pouco convivera. Nessa época, minha mãe tinha um amigo que costumava lhe emprestar livros e CDs seguidamente. Foi graças a ele que eu conheci “Baudolino”, “Balzac e a Costureirinha Chinesa”, “Corações Sujos” e muitos outros. Foi graças a ele também que eu comecei a ouvir Diana Krall e Steven Santoro.

Quando minha mãe estava fazendo as malas, eu peguei alguns livros que esse amigo lhe havia dado de presente, e resolvi ficar com eles (não muitos, uns dois ou três), apenas para passar o tempo. Tinha lido algumas páginas, pareceram interessantes, e livros sempre seriam uma boa companhia, eu supunha. Pois eu não podia estar mais certa.

Enquanto estava longe da minha família, os livros foram a minha melhor companhia. Eu lia compulsivamente, e esses momentos para mim eram os melhores do dia, porque eu podia abstrair completamente a realidade ao meu redor, estar sozinha comigo mesma, e ao mesmo tempo acompanhada.

Durante esse período, eu li um livro chamado “A Morte de Vishnu”, de um autor americano de origem indiana, Manil Suri. É até hoje um dos melhores livros que eu li, e o curioso é que eu tive a oportunidade de indicá-lo para uma amiga americana (também de origem indiana) que eu havia conhecido pela internet. Ela estava doente, de molho em casa, me pediu uma dica de leitura, e eu indiquei Manil Suri. Ela comprou a versão original e, alguns dias depois, me disse que havia amado o livro. Eu fiquei feliz de poder compartilhar boa literatura com alguém, ainda mais com uma pessoa que mora no outro hemisfério, e ainda por cima fala um outro idioma.

Mas o fato da minha vida que realmente se pareceu com as cenas do “Cuba Libre” aconteceu durante minha viagem a Campinas. Eu tive a chance de conhecer em São Paulo uma parte distante da família que eu não conhecia antes, e em Campinas especificamente morava uma prima muito distante, irmã do marido da filha da tia que estava me hospedando (pois é, isso é família...). Ela tinha uma casa imensa, e lá pelas tantas fomos fazer um tour para conhecer todas as peças. Pois para minha surpresa, no andar de cima havia uma sala vazia (um escritório desmontado, talvez, não me lembro bem...), onde havia uma estante cheia de... livros! Mal empilhados, desorganizados, alguns até meio jogados... E nós ali no meio, alguém teve a idéia de pedir um exemplar emprestado, o que logo foi concedido (amo pessoas desapegadas de seus livros!), e eu obviamente comecei a procurar alguns títulos para levar também. Eu me sentia verdadeiramente como o menino do filme... “Há tantos livros aqui!”

Naquela noite em Campinas eu estreitei meu contato com as artes de uma maneira que nunca vou esquecer. Botei na bolsa um exemplar que, assim como “A Morte de Vishnu”, seria ótima e inesquecível companhia: “Animal Tropical”, de Pedro Juan Gutiérrez. E na sala de jantar, um pouco antes de nós irmos embora, eu ouvi pela única vez na minha vida uma cantora lírica a poucos metros de distância de mim. Como não sou conhecedora de música erudita, não sei dizer qual foi a ária que ela cantou (uma música que já esteve em um comercial da Shell...), só sei dizer que foi sublime. Ouvindo ópera ao vivo, a gente realmente tem a impressão de que a potência vocal pode mesmo quebrar copos de cristal, como a gente ouve falar por aí. E eu deixei Campinas enlevada, um pouco nas nuvens, carregando um tesouro dentro da bolsa. Coisas tão imensas dentro de coisas tão simples.

Existe algo inexplicável que só encontramos nos livros, na música... Que se trata de encontrarmos o mundo dentro de nós mesmos.

29.11.06

Menos

Sabe quando a gente está exagerando em alguma coisa e alguém vem com aquela pequena palavra que comporta um enorme e sapientíssimo conselho: menos! Pois é, eu acho que ando querendo “menos” pra minha vida.

Não que a gente não deva ter grandes aspirações. Não que não se deva almejar ao melhor. Mas algumas coisas devem ser simples.

Infelizmente, com relação a algumas coisas que julgamos determinantes em nossas vidas, nós acabamos sendo cuidadosos demais. Acabamos idealizando demais. Achamos que o emprego definitivo só será aquele que nos fará 100% felizes em 100% do tempo, onde tenhamos realização profissional, sejamos valorizados e, obviamente, ganhemos bem. E pensamos o mesmo da pessoa com quem vamos nos casar, à qual daremos a honra da nossa companhia eterna, que evidentemente deve preencher uma extensa lista de pré-requisitos. Idealizamos nossos filhos, achamos que eles serão os melhores na escola, nos esportes e nas aulas de música e idiomas. Pais acham que suas filhas não vão dar antes dos 21 e mães têm certeza de que seus filhos serão bem-sucedidos, bem de vida e terão algum título que lhes confira algum status social.

Mas essa expectativa toda cansa. A perfeição é chata, simplesmente porque não podemos ir além dela. Ela sepulta toda a emoção, todo o desafio, o anseio pelo inesperado. Isso sem contar o mais importante: a perfeição não existe.

Pensando um pouco, eu resolvi não encanar com certas idéias fixas, ideais elevados, cláusulas pétreas das minhas idiossincrasias. Continuo querendo mudar o mundo – por que não? Mas percebi que nem tudo tem que ser do jeito que eu idealizei. Certamente alguém lá em cima tem muito mais know-how pra organizar a vida de um jeito muito mais certo do que o que consta no meu script. Percebi que a busca incessante da perfeição em tudo nos engessa, nos mete medo. Medo principalmente de que nós mesmos não sejamos capazes de atingi-la. Percebi que a vida não foi feita pra ser vivida com medo. E percebi principalmente que, se talvez a perfeição exista, ela com certeza não se parece em nada com aquilo que eu havia imaginado.

28.11.06

O Nascimento de um Blog

Escrever um blog é uma idéia que veio amadurecendo aos poucos na minha cabeça. Eu sempre escrevi diários e cartas para mim mesma, sobre as coisas mais prosaicas e irrelevantes, exatamente como esses blogs que andam por aí agora, só que os meus eram em versão papel e caneta.

O “clique” veio quando uma amiga, durante um jantar em um japonês, foi direto ao assunto: “Por que você não escreve um blog? Eu acho que você devia escrever um blog...”

Explico: felizmente, pessoas parecidas às vezes dão a sorte de se encontrar, e foi exatamente o que aconteceu entre mim e a Michele. Somos tão parecidas que nós brincamos que somos almas gêmeas. Isso quer dizer que, por uma agradável “coincidência” do destino, eu arrumei a melhor companhia possível pra fazer algo que qualquer pessoa faz – comer sushi e beber vinho em um restaurante japonês toda semana. E também para fazer algo que quase ninguém faz – passar algumas horas discutindo sentimentos, idéias e afins.

OK, a gente não quer ser nojenta, mas a gente olha em volta, olha para as outras mesas, e vê as mulheres falando sobre a vida alheia, os homens falando sobre futebol, as mulheres falando sobre roupas, sapatos e cor de tinta de cabelo, os homens falando sobre mulher, e tudo fica naquela superficialidade desgraçada. Pois eu e Michele falamos sobre tudo isso, muitas vezes a gente até entra no restaurante com um monte de sacolas penduradas e comenta como foi boa aquela liquidação, mas nunca pára por aí...

Pausa para reflexão: isso me leva a pensar que o valor das pessoas nem sempre está no que elas fazem, mas no que elas podem fazer. Isso entra um pouco em conflito com uma frase que eu adoro, que a Katie Holmes proferiu para o Christian Bale em Batman Begins: It’s not who you are underneath, it’s what you do that defines you. Mas eu exemplifico: imagina que você foi convidado para passar um fim de semana no sítio do Ian Thorpe lá no interior da Austrália. Então naquele calorão danado, um churrasco, uma cerveja, ou seja lá qual for o costume australiano, as pessoas resolvem cair na piscina pra se refrescar, o que obviamente inclui o dono da casa himself. E você vê o Ian Thorpe boiando lá na piscina, de barriga pra cima, bem tranqüilão. Por que isso? Porque obviamente o Ian Thorpe não vai passar 24 horas por dia quebrando recordes mundiais dentro de uma piscina. Ele deixa de ser supercampeão por causa disso? Não. Ele não está ali nadando a duzentos quilômetros por hora diante de você, mas você sabe que ele pode. Isso me leva a uma outra reflexão: como é importante o timing. Mas acho que vou deixar isso pra outra hora.

Enfim, o que eu quero dizer é que há uma grande probabilidade de eu estar conversando amenidades com a Michele em uma mesa num japonês qualquer. Aliás, a gente pode até estar falando bobagens inomináveis. E rindo de chorar, provavelmente. Mas a gente pode ir além. Esse é o diferencial. Aliás, como diria meu sábio e saudoso pai, o importante não é ser diferente, mas ser diferenciado.

(Sem querer se jactar de nada aqui... até porque eu adoraria que houvesse mais pessoas capazes de ouvir certas coisas sem dizer “acho que tu bebeu demais, hein?”)

Mas então, foi assim que a minha amiga contribuiu para me convencer a escrever um blog.

A outra contribuição importante veio de um amigo que é paulista, mora em Marília e eu nunca vi pessoalmente na minha vida (quanto a isso só sei que tem bom gosto pra gravatas). Explico: ele escreve, junto com amigos, um blog fantástico. Juro que quando eu li pela primeira vez eu senti aquele estalo dizendo “queria fazer algo assim”. Algum tempo depois, quando ele escreveu um post nascido de uma idéia que eu havia levantado em um scrap no Orkut dele, eu vi que talvez eu pudesse realmente fazer alguma coisa parecida.

E agora, o golpe de misericórdia.. Estava procurando no Google alguma informação sobre o vídeo da atriz carioca que fez uma imitação da Maria Rita no Programa do Jô (absolutamente impagável), e acabei entrando num blog que tinha um post sobre o assunto. No final das contas, não achei lá nenhuma informação relevante para encontrar o vídeo (que ainda não está no YouTube, como pode?), mas achei o blog fenomenal.

Tem muita gente dizendo que os blogs estão transformando a arte da escrita em um balaio de gato, porque hoje em dia todo mundo escreve aquilo que bem entende, e existe muita coisa de má qualidade et cetera e tal... Pois eu acho que a arte sempre vai ser assim: de um campo extenso de opções, você vai extrair algumas poucas – não necessariamente as melhores, mas aquelas com as quais você mais se identifica. Eu acho que dentre os milhões de títulos já editados em livro por aí, existe sim muita porcaria, exatamente como no universo de milhões de blogs que existe na net. A única diferença na minha opinião é que agora se expandiu o leque de opções. A literatura disponível simplesmente deixou de ser estabelecida pelos editores. Com os blogs, o público tem tudo à mão e pode escolher livremente aquilo que mais lhe interessa. Sem intermediários.

Mas é óbvio que todos os que perdem algum poder sempre vão chiar. Isso sempre foi e sempre será assim. Eu também não pretendo mudar a natureza humana, meu problema é com a dissimulação, com o “não é bem assim”...

Juro que um dia ainda vou descobrir quem é que ganha alguma coisa com esse mundo de hipocrisias...

E juro também que ainda vou viver para ver as pessoas se responsabilizando por seus pensamentos e atitudes.