30.11.06

Na Companhia de Livros

Estava vendo um filme na TV de madrugada, e havia uma cena em que uma menininha, que devia ter uns oito anos de idade, pedia emprestado a um menino, mais ou menos da mesma idade, um livro. Ela simplesmente estava no quarto brincando com ele, o livro estava por ali, e quando a mãe veio chamá-la para ir embora, ela passou a mão no livro e pediu ao amiguinho: “Posso pegar emprestado?” Ao que ele concordou, mas não sem fazer uma importante observação: “Mas traga de volta, hein?”

No mesmo filme, algumas cenas antes, o mesmo menino era surpreendido roubando mangas do quintal de uma mulher misteriosa. Ferido após cair da mangueira e cercado pelos cães de guarda, o menino fora resgatado pela dona da casa e levado pra dentro. Lá, confortavelmente sentado em uma poltrona, ele comentou: “Gostei muito de conhecer a sua casa. Há tantos livros aqui.”

O resto do filme, chamado “Cuba Libre”, é apenas assistível, mas essas duas cenas me despertaram uma nostalgia de livros que eu não sentia há tempos. Aliás, ultimamente pouco tenho pegado em livros, pra dizer a verdade (shame on me!). Mas o filme me fez lembrar como livros são uma ótima companhia.

Pouco antes de me mudar para Porto Alegre, eu passei dois meses longe da minha família, morando com uma tia com a qual eu pouco convivera. Nessa época, minha mãe tinha um amigo que costumava lhe emprestar livros e CDs seguidamente. Foi graças a ele que eu conheci “Baudolino”, “Balzac e a Costureirinha Chinesa”, “Corações Sujos” e muitos outros. Foi graças a ele também que eu comecei a ouvir Diana Krall e Steven Santoro.

Quando minha mãe estava fazendo as malas, eu peguei alguns livros que esse amigo lhe havia dado de presente, e resolvi ficar com eles (não muitos, uns dois ou três), apenas para passar o tempo. Tinha lido algumas páginas, pareceram interessantes, e livros sempre seriam uma boa companhia, eu supunha. Pois eu não podia estar mais certa.

Enquanto estava longe da minha família, os livros foram a minha melhor companhia. Eu lia compulsivamente, e esses momentos para mim eram os melhores do dia, porque eu podia abstrair completamente a realidade ao meu redor, estar sozinha comigo mesma, e ao mesmo tempo acompanhada.

Durante esse período, eu li um livro chamado “A Morte de Vishnu”, de um autor americano de origem indiana, Manil Suri. É até hoje um dos melhores livros que eu li, e o curioso é que eu tive a oportunidade de indicá-lo para uma amiga americana (também de origem indiana) que eu havia conhecido pela internet. Ela estava doente, de molho em casa, me pediu uma dica de leitura, e eu indiquei Manil Suri. Ela comprou a versão original e, alguns dias depois, me disse que havia amado o livro. Eu fiquei feliz de poder compartilhar boa literatura com alguém, ainda mais com uma pessoa que mora no outro hemisfério, e ainda por cima fala um outro idioma.

Mas o fato da minha vida que realmente se pareceu com as cenas do “Cuba Libre” aconteceu durante minha viagem a Campinas. Eu tive a chance de conhecer em São Paulo uma parte distante da família que eu não conhecia antes, e em Campinas especificamente morava uma prima muito distante, irmã do marido da filha da tia que estava me hospedando (pois é, isso é família...). Ela tinha uma casa imensa, e lá pelas tantas fomos fazer um tour para conhecer todas as peças. Pois para minha surpresa, no andar de cima havia uma sala vazia (um escritório desmontado, talvez, não me lembro bem...), onde havia uma estante cheia de... livros! Mal empilhados, desorganizados, alguns até meio jogados... E nós ali no meio, alguém teve a idéia de pedir um exemplar emprestado, o que logo foi concedido (amo pessoas desapegadas de seus livros!), e eu obviamente comecei a procurar alguns títulos para levar também. Eu me sentia verdadeiramente como o menino do filme... “Há tantos livros aqui!”

Naquela noite em Campinas eu estreitei meu contato com as artes de uma maneira que nunca vou esquecer. Botei na bolsa um exemplar que, assim como “A Morte de Vishnu”, seria ótima e inesquecível companhia: “Animal Tropical”, de Pedro Juan Gutiérrez. E na sala de jantar, um pouco antes de nós irmos embora, eu ouvi pela única vez na minha vida uma cantora lírica a poucos metros de distância de mim. Como não sou conhecedora de música erudita, não sei dizer qual foi a ária que ela cantou (uma música que já esteve em um comercial da Shell...), só sei dizer que foi sublime. Ouvindo ópera ao vivo, a gente realmente tem a impressão de que a potência vocal pode mesmo quebrar copos de cristal, como a gente ouve falar por aí. E eu deixei Campinas enlevada, um pouco nas nuvens, carregando um tesouro dentro da bolsa. Coisas tão imensas dentro de coisas tão simples.

Existe algo inexplicável que só encontramos nos livros, na música... Que se trata de encontrarmos o mundo dentro de nós mesmos.

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