23.9.07

A sua paz, a nossa guerra

Ainda sobre o flanelinha, os R$ 5, a lataria riscada. A outra reflexão que essa reportagem me provocou é a respeito de nosso senso de valor dentro desse cenário de caos e violência urbana onde vivemos hoje.

O porto-alegrense que tem o seu carro riscado por se recusar a dar R$ 5 a um flanelinha é considerado refém. OK, essa idéia na minha opinião já é bastante preocupante, mas não é o pior. O pior é que, graças a essa idéia, muitas pessoas dão R$ 5, ou R$ 2, ou R$ 1, ou o que for pro flanelinha, essa praga urbana que, a continuar essa situação, vai ter longa vida sugando o dinheiro de gente que trabalha e paga impostos. Pra não terem o seu carro riscado, as pessoas perpetuam um círculo vicioso de abuso, malandragem e bandidagem. E o meu questionamento é muito simples: nossa moral de cidadãos realmente vale assim tão pouco? Um risco na lateral do carro?

Sabe o que eu acho? Façamos uma campanha. Transformemos os riscos nas laterais dos nossos carros nos baluartes da nossa indignação. Desfilemo-nos pelas ruas e orgulhemo-nos deles. Colemos adesivos nos vidros. "Carro riscado em nome da cidadania". Que esses riscos se transformem nas cicatrizes da nossa guerra contra a bandidagem, e que as exibamos felizes como soldados que retornam da batalha.

Eu não sei dizer em que lugar da História da humanidade exatamente aconteceu o grande evento de acomodação coletiva. Que momento foi esse em que resolvemos simplesmente parar de lutar por nossos direitos? Em que passamos a aceitar passivamente que bandidos perturbem nossa segurança, roubem nossas posses e firam nossos entes queridos? Talvez a própria instituição do Estado, a criação do Direito, a centralização do poder de polícia, tudo isso deve ter contribuído para que as pessoas terceirizassem a defesa dos seus direitos. São questões amplas demais pra discutir aqui. Mas tudo isso tampouco justifica que as pessoas abram mão do direito - e diria mais, da obrigação - de não compactuar com as injustiças. Porque o cara que dá cinco pilas pra um flanelinha não riscar o carro dele está sendo cúmplice de um crime contra a sociedade. Está ajudando a perpetuar a conduta impune de um malandro que vai continuar extorquindo pessoas sob a ameaça de riscar seus carros. E continuaremos sempre assim, ao invés de resolvermos os delitos, nós os subornamos e assim vamos empurrando com a barriga. Entregando nossos cinco pilas, nossos relógios, celulares, bolsas... junto entregamos também nossa dignidade.

Como diria a célebre frase de Martin Luther King: "O que me preocupa não é o grito dos maus. Mas o silêncio dos bons."

Um comentário:

RAMiRO FURQUiM disse...

Bah.. Apoiada, ceeeertamente! Não dou nem moeda pra esses putos!!!
Tenho muita vontade de comprar um carro, um Passat 60 e poucos, bem velho, que é pra bater nos motoristas mau-educados e arrogantes da Leal e Valorosa, também...