Há algo muito recorrente em documentários sobre grandes dramas da humanidade, como o Holocausto dos judeus, a chacina da Candelária e a Inquisição da Igreja Católica: pessoas que presenciaram esses acontecimentos de forma muito viva, e que devotaram sua vida à luta para que os registros desses eventos jamais fossem apagados.
Eu sempre me perguntei pra que isso. Por que havia pessoas que estavam sempre ali, cutucando a gente, volta e meia trazendo esses assuntos de volta à tona, não nos deixando esquecer essa mancha funesta no currículo da humanidade. "OK, a gente já sabe que tudo isso foi horrível, e que não devemos fazer de novo", era o que eu sempre pensava. Mas eu descobri que a presença viva do ódio é muito mais forte do que qualquer idéia. É muito mais forte do que qualquer coisa que a gente possa julgar já saber de cor e salteado.
Este post sobre o ódio era pra ser uma coisa bem pessoal, passional até. Eu pretendia contar algumas histórias sobre a perpetuação do ódio, e pior ainda, sobre o seu trancamento dentro dos corações das pessoas (o que contraria totalmente a minha teoria de que corações devem ter torneiras abertas). Mas não. Porque minhas histórias não são de holocausto. E também porque, embora eu tenha aprendido como a presença viva e recorrente do ódio seja importante, eu continuo não querendo isso pra mim. Aqui no meu blog eu me reservo o direito de, em loucos devaneios, acreditar que as pessoas podem, sim, aprender a lição apenas uma vez e não precisem que uma assombração fantasmagórica venha aterrorizá-las durante a noite para que se lembrem de fazer as coisas certas.
Mas o ódio, ou a sua forma material, tangível, é um contraponto indispensável para nós, seres humanos. Ele nos mostra o quanto as coisas poderiam ser piores, o quanto aprendemos, o quanto trilhamos nessa estrada rumo a um amanhã melhor do que o hoje. Encarar o ódio nos olhos é ao mesmo tempo perceber a maravilha de tudo aquilo de bom que conquistamos, e o horror que existiria se tudo aquilo nos faltasse, se por um pequeno lapso nós nos desencaminhássemos, tropeçássemos e caíssemos na vala funda da nossa própria obscuridade. O ódio na verdade é um chamamento à realidade, é uma lente que nos coloca os fatos em perspectiva. Parece paradoxal, mas o ódio é uma bênção.
Eu desejo sinceramente que alguém odeie você. E que você possa olhar esse ódio nos olhos, porque isso ajuda a colocar todas as coisas nos seus devidos lugares. O ódio nos relembra que precisamos amar.
20.11.07
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