Guldunya tinha 22 anos quando morreu, em 2004, em Istambul, capital da Turquia.
Filha de um tradicional clã de sua cidade natal, Bingol, Guldunya caiu em desgraça ao se apaixonar por um primo casado, iniciar um romance com ele e, mais tarde, engravidar.
Com a descoberta da gravidez, a família de Guldunya a manteve presa em casa, até que se descobrisse toda a história. Os irmãos de Guldunya tinham outros planos pra ela. Queriam que se casasse com outro homem, mas aquela gravidez era deveras inconveniente.
Guldunya foi levada a Istambul para que desse à luz clandestinamente. Porém, isso não foi suficiente. A vergonha de ter uma irmã gerando um filho fora do casamento, dentro da própria família, de um primo casado, a mácula irrecuperável na honra do clã, foram intensas demais para suportar.
Os dois irmãos de Guldunya tentaram matá-la a tiros. Ela milagrosamente sobreviveu, e foi hospitalizada. Poucas horas depois, um dos irmãos entrou no hospital e terminou o serviço, limpando a honra da família.
Estima-se que, a cada ano, pelo menos cem mulheres morrem na Turquia por esse mesmo motivo.
O que mais me impressiona nessa notícia, que eu li hoje à noite no jornal de domingo, é a forma perfeita como ela ilustra a bestialidade do machismo arcaico e obsoleto que - pasmem - ainda sobrevive em pleno século 21.
Cem mortes de mulheres ao ano em um país, por crimes de honra, é muito. Quase uma morte a cada três dias. Mas o mais espantoso é que a estatística computa somente os casos que terminam em tragédia, como o de Guldunya. Casos de pessoas dentro do próprio seio familiar, irmãos, que cresceram juntos e compartilharam uma vida inteira de convivência, e chegam ao cúmulo de apertar um gatilho para ceifar a vida do outro.
Por trás dessas estatísticas, a realidade é a de um ódio que se enraíza sorrateiramente em muitas famílias. A sociedade sexista, que incute valores ultrapassados na cabeça das pessoas, faz com que muitos homens se achem no direito de julgar o comportamento de suas irmãs, primas, mães e tias. E esse julgamento velado se transforma num verdadeiro câncer social, que invariavelmente explode em situações como a de Guldunya. A ignorância, a intolerância, o preconceito e a hipocrisia criam um abismo muitas vezes intransponível entre homens e mulheres, que se manifesta muitas vezes não sob a forma de um tiro, mas de um olhar, de um gesto ou de uma palavra de reprovação, vindos de onde se espera apoio, respeito, carinho e consideração. Ninguém - homem ou mulher, familiar ou não - pode se arvorar juiz da moral alheia.
Eu não vivo na Turquia e seria absolutamente infeliz me comparar à situação de Guldunya. O Ocidente é mais liberal, não vivemos sob a égide do Islã, não precisamos botar um véu na cabeça para andar na rua. Mas acho que esse é um sentimento compartilhado pelas mulheres em qualquer lugar do mundo. Eu tenho um irmão, um ano mais velho do que eu, que constantemente manifesta esse tipo de julgamento. Minhas amigas, por exemplo, ele não qualifica pelo caráter, inteligência, personalidade. Seu critério pra determinar uma mulher que "presta" ou não - quem é ele, ou qualquer um, pra julgar? - é unicamente o comportamento sexual. Pra ele as mulheres se enquadram em duas categorias: ou dão bastante, ou estão loucas pra dar. Trabalhadoras? Honestas? Boas mães, filhas ou irmãs? Inteligentes? Autênticas? Nada disso importa. Computemos o número de homens que já passaram pela sua cama.
Meu irmão certa vez proferiu esta pérola (como isso foi há muito tempo atrás, eu espero sinceramente que ele já tenha mudado de opinião): "Pra mim, à exceção da minha mãe e da minha irmã, todas as mulheres no mundo são putas, até prova em contrário". Eu acho que hoje em dia ele já deve ter mudado essa opinião, nem que tenha sido pra excluir alguém do rol de exceções.
O que mais me impressiona em tudo isso é que homens não levam em conta o curriculum vitae sexual de outros homens na hora de construir suas amizades. Ao contrário, muitas vezes a promiscuidade masculina conta pontos a favor, conferindo uma boa fama ao garanhão pegador. Já quando se trata de mulheres, a primeira coisa a ser analisada é justamente isso. E essa constatação não é um libelo em defesa da promiscuidade feminina, mas contra a hipocrisia reinante na sociedade atual. Porque, até onde me consta, à exceção das desculpas científicas esfarrapadas que pretendem nos convencer de que os homens têm mais necessidade de sexo do que as mulheres, não foi baixado ainda nenhum decreto estabelecendo códigos morais diferenciados para homens e mulheres.
O comportamento de pessoas como os irmãos que condenaram Guldunya se assemelha ao dos vegans que fazem campanhas incansáveis contra o consumo de carne. Com tantas outras coisas mais importantes no mundo, tem gente se preocupando com isso - com o perdão do trocadilho, literalmente com o que os outros comem. Eu me pergunto por que, ao invés de nos ocuparmos com questões de foro íntimo de cada um, não gastamos nosso tempo pensando em como minimizar os efeitos do aquecimento global, da fome e da miséria no mundo. Mas enquanto mulheres são apedrejadas até a morte por adultério no Oriente Médio, genocidas que comandam o lançamento de bombas sobre populações inocentes continuam desfrutando do poder como os grandes comandantes do mundo.
Homens? Mulheres? Antes de mais nada, seres humanos.
5.2.07
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